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Nonsense Friday

Nonsense Friday – A Arte do Crime

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Boa tarde galera Geek, desculpem a demora, sei que alguns de vocês já vieram aqui pela manhã procurando a sua dose semanal de boas risadas com o Nonsense Friday, então, fiquem com mais este texto sem sentido e sem noção.


Nonsense Friday

A arte do crime (mal feito)

O crime, seja lá qual for, mesmo que considerado algo maléfico pela sociedade em geral, fascina à todos. Certamente, alguns contestarão a afirmativa anterior, porém, isso é fato: o crime possui uma certa magia, um quê de prazeroso, possivelmente por conta da velha história de que “o proibido é mais gostoso”. Outro fato, é que a sociedade tem fome de sangue, seja ele em sua forma pastosa e literal, ou na forma figurada. E essa fome animal, é, em parte, saciada pelos telejornais, que, ao mesmo tempo que saciam, também alimentam a imaginação das pessoas, o que, paradoxalmente, as deixa mais famintas. Se dissecarmos a fundo a nossa sociedade, e a submetermos à um olhar mais aguçado, veremos que o crime está intrínseco na sociedade, assim como o instinto nos animais. Logo, todos são loucos; logo, eu sou louco; logo, talvez não seja bom que você leia o resto disso.

Terminou.
Vestiu-se.
Pagou.
Foi-se embora.
Já era tarde.
Já era vício.
Já estava pobre.
Desempregado.

A reserva de dinheiro, o pouco que sobrara, já não sobra mais. Era sempre assim, depois que gastava, o vilipêndio pesava na consciência. O seu suado dinheiro estava agora em posse de um mercado, e de uma meretriz. Miojo, álcool e puta, comprados nessa seqüência, porém não consumidos necessariamente nessa ordem. As mercadorias, exceto a mulher, repousavam na mesa suja da cozinha. Dinheiro bem gasto? Bom, bem gasto ou não, tudo estava ali, olhando pra ele. Dois de seus três vícios estavam na mesa, do terceiro, ainda guardava o torpor.

Sem praticamente nada naquele pequeno apartamento-pulgueiro, ao qual nem de “casa” merecia ser chamado, a única coisa que ele poderia fazer ali dentro, era reclinar-se no sofá roto, e maquinar sobre como voltar a ter dinheiro, por menor que venha a ser a quantia. Mas ele já tinha um plano, e alguém para lhe ajudar.

A vizinha de cima,
e a namorada de Luigi,
respectivamente.

A vizinha de cima é viúva, e guarda dinheiro, corre o boca-a-boca. Não gasta quase nada, só nos remédios. Logo, é só deixá-la sem os remédios. Mas isso é difícil, e se assim for feito, a mulher sofrerá demais, e irá demorar. Portanto, que seja feito algo mais eficiente.

E ainda essa semana.

Como Luigi acabara de entrar para o rol dos desempregados, ele passaria os dias no seu pulgueiro, sem o que fazer, só esperando pela sexta, dia de folga da namorada.

Terça: ócio/acabaram os miojos.
Quarta: ócio.
Quinta: ócio/acabou a vodka; dois copos para acabar o vinho.
Sexta: quase ócio completo.
16:43, a campainha toca e a namorada entra.
16:44, a namorada arrasta, atrás de si, uma mala. Uma grande mala.

– Tá tudo aí? – pergunta Luigi de forma ansiosa.
– Sim. Crachá… gravata e terno… revólver e silenciador… e o Otto.
– Pra quê o Otto, ele vai ajudar mordendo a velha?
– Não, mas ele me pediu pra vir junto… – Otto pula nas pernas da namorada.
– Ah, é? Pediu? Com convite formal, R.S.V.P. e tudo?
– Ah… Cala a boca, Luigi, tu sabe como é que o Otto pede – a namorada afaga o cão, e o cão ronrona levemente. (peraí, o cão ronrona?)
– Tá tá! O Otto fica aqui e a gente vai lá, e mata a velha.
– Isso.

Como só haviam eles no pulgueiro, se trocaram ali mesmo. Ela vestiu um tailleur cinza e amarrou os cabelos. Luigi vestiu o terno risca-de-giz, camisa branca e gravata vermelho-meio-vinho. E os dois colocaram os crachás, nos quais estava escrito “Censo 2008”.

17:14, deixam o pulgueiro.
17:16, tocam a campainha da velha.

A porta abre. É revelada uma figura de baixa estatura, trajando um roupão rosa, e pantufas azuis. A mulher tem seus cabelos já se transformando do preto para o branco.

– O que vocês gostariam? – a mulher, apesar da pouca-muita idade, está perdendo a visão, e, semicerra os olhos para tentar ler os crachás de Luigi e da namorada.
– Bom dia! – diz Luigi – Somos do IBGE e gostaríamos de entrevistá-la, podemos entrar?
– Mas é claro, adoro colaborar com a pátria!

Pelo visto, o assoalho de madeira fora recentemente encerado. Brilhava. Dava até pena de pisá-lo, mas é necessário. E logo estaria vermelho. Os móveis da sala eram dispostos de maneira metódica e obsessiva.
A honesta senhora se acomoda em sua poltrona e os pseudo-recenseadores fazem o mesmo em um sofá de veludo vermelho. Luigi agarra uma almofada. A namorada pega a caneta e a prancheta.

A namorada: O seu nome, por gentileza.
Mulher: Luci Lemos.
A namorada: Quantos filhos, se os possui.
Luci: Nenhum. (esboça um daqueles sorrisos que antecedem as lágrimas)

E antes que Luci comece a lamuriar-se, Luigi pega discretamente o revólver, com o silenciador já colocado, ajeita-o atrás da almofada, e atira.

– Pra quê a almofada, seu retardado? – late a namorada.
– Ah, sei lá, vai que o silenciador não funciona?
– Tá tá tá, onde que a mulher guarda o dinheiro?
– Hum… veja bem… digamos… que eu não sei. – Luigi resmunga de cabeça baixa.

A namorada anda alguns passos para trás, afinal, o corpo de Luci, que sangrava no chão encerado, estava próximo da namorada, e o sangue quase tocou seus sapatos de liquidação. Mas, a namorada logo berra:

– O quêêêêêêêêêêêêê? Tu não sabe onde a velha enfia o dinheiro? Ah, pois bem que a minha mãe disse que tu era um bunda-mole… viado… nem pra roubar tu me serve!
– Calma…
– Calma o quê? Pensa que eu não sei que tu vai no bordel? – a namorada brandia a prancheta como se fosse uma Joana D’arc subversiva.
– Olha, façamos assim: cada um vai pra um lado, e procura alguma coisa, um cofre, ok?
– Certo!… Afinal eu quero o dinheiro!

Luigi pôs-se a procurar na sala, e a namorada foi para o local que aparentava ser o quarto. Ela derrubou os quadros de santos, mas não achou nada. Abriu o armário, e não tinha nada. Derrubou as roupas, e nada. Virou as gavetas, e nada. Mas, naquele monte de roupas espalhadas no chão, duas coisas lhe chamaram a atenção: algo preto, fino e comprido, e junto disso, uma cinta-liga. Ela, a namorada, deu um leve sorriso. Tirou o tailleur e vestiu a cinta-liga, pegou o chicote, se olhou no espelho, deu uma risadinha, e foi até a sala.

Luigi vira-se para trás, ao ouvir alguém se aproximando, e vê a namorada.

– Quê que é isso? – Luigi leva um bom susto.
– Não gostou? – a namorada dá uma risadinha, mordisca a ponta do chicote e passa-o por entre as pernas de Luigi.
– Tu não tava toda estressadinha, antes? E… onde que tava essa cinta-liga? – Luigi sente algo crescer em si.
– Hum… Mister Luigi, pelo visto tu ainda gosta de mim, ou pelo menos me quer… Então por que tu vai no bordel, seu filho da puta? Hã? – a namorada volta a berrar e bate com o chicote em Luigi.
– Basta! Viemos aqui pra matar e pegar o dinheiro, certo? Antes de dar o assunto por encerrado, só uma coisa: nunca te vi usando cinta-liga, essa aí é tua ou da velha?
– É dela. – a namorada aponta para Luci com o chicote – Tava lá no armário dela, junto de um terço…
– Hum… Enfim, achou o cofre?
– Não…
– Me ajuda aqui na sala.

Ambos derrubavam tudo na sala. A namorada quase tropeça no tapete.

– Larga essa merda que fica mais fácil! – Luigi aponta para o chicote.

Ela larga o chicote no chão, e, andando sem olhar para os pés, a namorada tropeça em Luci e cai na poça de sangue. Nesse meio tempo, Luigi derruba uma estante e vê o cofre, destravado.

– Vem aqui! – Luigi parece uma criança, tamanha a alegria, chamando a namorada – Achei um cofre!
– Posso sair do meio do sangue, antes? – a namorada, com o rosto vermelho, balbucia.
– Tá.

O coração de Luigi dispara, e ele abre o cofre. E cai o queixo. Eles foram ali para, única e exclusivamente, roubar. Aparentemente, dentro do cofre não havia dinheiro algum, nem nada valioso. Ali dentro haviam: revistas de homens nus, cuecas, algo de forma fálica que aparentava ser um vibrador, um Kama Sutra e um pé de meia.

A namorada estava atrás de Luigi, e ria.

– Quer dizer que ela só comprava remédios, é?
– É que… eu ouvi dizer que… – Luigi se perdia no meio dos gaguejos e dos “e… que…”
– Ai, ai! Viemos aqui, matamos a mulher, fizemos uma enorme baderna, só pra roubar as fantasias sexuais da velha?
– Eu não sabia…
– Então, depois dessa ótima parte do meu dia, vamos embora? Eu tenho que tomar banho, olha só como estou…
– É mesmo… – agora Luigi troca a expressão de perplexidade, por um sorriso sacana. – Tomamos juntos?
– Claro! – nessa altura do relato, a namorada já tinha esquecido o bordel, o cofre e o corpo no chão.

Foram ao banheiro, lá fizeram o que queriam fazer, afinal, não fariam na sala, pois eles poderiam ser assaltantes e assassinos, mas ainda respeitam os mortos.

Voltaram do banheiro, nus, cansados e apressados. Cataram pelo chão as coisas que trouxeram, foram à porta, viram pelo olho-mágico que não havia ninguém no corredor, e saíram do apartamento de Luci. Nus. O pulgueiro de Luigi é no andar de baixo, por isso saíram assim, correndo.

Mas, no final da escada que dava no andar de Luigi, uma mulher vinha subindo. E viu-os descendo, nus, correndo. A mulher ficou chocada e correu para o seu apartamento, que é no andar do de Luci. Quando chegou no seu andar, ela viu, entreaberta, a porta do apartamento de Luci. Dois nus, e uma porta aberta, sendo que essa vivia fechada, a mulher estranhou. E a mulher ligou para a polícia.

Certamente, a polícia demorou a chegar, mas quando chegou, foi eficiente. Ou nem tanto. Viram um corpo e um apartamento revirado, mas nada de nus.

O soldado Fernandes, quando chegou, logo viu o porquê da bagunça e da morte: um cofre aberto. É claro que o capitão riu quando viu os artefatos que se encontravam no cofre. Porém, ele estranhou, nada parecia ter sido roubado. Fernandes, tarado, pegou o Kama Sutra e abriu para ver as gravuras, enquanto os outros trabalhavam no corpo e no resto do local. Ao abrir o livro, viu um grande furo no meio das páginas, onde estavam várias notas de Euro, dois cartões de crédito, um colar de pérolas brancas e um par de brincos de pérolas negras. Indignado com a inocência dos mentecaptos, ele sussurra para si:

– Qual foi o idiota que veio aqui só pra derrubar a mobília? Retardado… E nem leva nada… Vê se pode…

Engano do senhor Fernandes: a namorada levou a cinta-liga e o chicote.


 

Por hoje é isso amigos geeks, espero que tenham gostado de mais um Nonsense Friday. Não esqueçam, vocês podem ler a coletânea Nonsense Friday clicando aqui!

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Delson Borges
Mineiro de Cambuquira, 28 anos, amante da poesia e causos que em devaneios e inspirações cotidianas transfere o que sente e contempla da vida para a literatura. Pretendo levar o leitor à lúdica aventura de sorrir, refletir e se deslocar no tempo e no espaço através de meus contos, muitos sem sentido ou nonsense como chamam os entendidos do assunto.
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